quarta-feira, 6 de outubro de 2010

É tão verdade

Não me dou bem com o meu pai. É o tipo de pessoa que acha que a educação que teve, por pior que seja, é a que deve ser transmitida aos filhos. Em resultado disso, não tenho uma única memória feliz com ele. Posso dizer com sinceridade que se lhe desse uma travadinha amanhã, não ficaria indiferente (acho eu...), mas não seria um grande drama.

A minha figura paterna foi sempre o meu avô materno. Era ele que falava comigo, que me dava a mão e que me confortava com abraços e festas na cabeça, porque percebia que apesar de não o dizer, que estava triste. Era ele que me levava a apanhar sapos e cágados para as valas. Que me ensinou a fazer remelhões de minhocas, para ir à pesca da enguia na sexta feira santa e que me ia buscar à escola. Era ele que sorvia a sopa na colher e que dizia a rir-se, depois dos meus protestos, que assim sabia melhor. Era ele que se ria até ficar com a cara toda enrugada e com os olhos azuis cheios de lágrimas. Foi ao lado dele que me sentei na minha primeira maratona nocturna de filmes portugueses. Levava-me sempre nas excursões e com ele conheci Portugal de lés a lés. Foi com ele, portanto, que me permiti ser criança.

Uns seis meses antes e já nem me lembro o motivo, comecei a pensar que ele não estaria cá para sempre. Comecei a jantar com ele, em vez de na minha casa. Ficávamos a falar até às tantas (que naquele tempo eram até às 11 da noite) e encostava-me a ele com força para sentir o cheiro do casaco castanho de pele curtida que ele vestia sempre.
E depois já no fim de o ir ver ao hospital e ele despedir-se de mim. De ouvir uma assistente social, a dar-me palmadinhas no ombro e a repetir que tudo se ía compor. Dos médicos dizerem que ele estava melhor, que lhe íam dar alta e do alívio. Do telefone tocar à noite e de eu ter pedido "por favor, que ele não morra" até adormecer. E do choque de ver a minha mãe a chorar.

Não me lembro de grande coisa do velório e não fui ao funeral. Acho que foi uma tentativa de recusar a situação. Deve ser por isso que a primeira lembrança que eu tenho do meu avô não é dele doente. É de, num domingo à tarde a ver "A canção de Lisboa", estar encostada a ele a sentir aquela mistura de cheiro do Old Spice com a pele do casaco, e ele a cantarolar com um sorriso na voz que "tudo o mais eram cantigas".

Como diz a Mente, a saudade tem cheiro.

(Nota: post repescado de 06/10/10)

4 comentários:

Menino da Mamã disse...

Achei isto genuinamente bonito e puro :)

M. disse...

:)

LL disse...

No sabado perguntaste me qual foi o post me mais gostei. Pois bem, tenho que rectificar a minha resposta, passou a ser este.
Mas se não te importas, só a partir do segundo paragrafo.
Não ponho em causa as tuas razões e até te comprrendo, tenho uma relação também complicada com o meu pai.
Mas tira um pouco a beleza a tudo o que vem depois. Nota-se que vem do coração, mas o primeiro paragrafo vem do lado mais escuro

M. disse...

@ LL,

Passada uma década, já devias saber que ele também existe. :)